As confissões cobertas por lágrimas de Sam Smith

Isso é o inventário mais completo dos tempos em que o querido e,  triste Sam Smith chorou ao longo de duas horas em um sofá aqui no Chateau Marmont Hotel numa recente manhã de sexta-feira: ele chorou quando falou da casa em que cresceu; quando ele recordou sobre uma paixão; quando ele falou sobre seu primeiro professor de voz. Ele chorou quando falou sobre escrever “Pray”, uma música do seu novo álbum, “The Thrill of It All”. Ele chorou quando ele conversou sobre as crianças que ele conheceu em Mosul, Iraque, em uma recente missão humanitária, e então ele olhou para a tatuagem que ele fez em seu braço quando voltou para casa, com “Be good, Be kind” escrito em árabe e, ele chorou novamente. Ele chorou falando o quanto ele chorou quando ele assistiu ao filme “Inside Out” (Divertida Mente, em português).  E ele chorou quando ele falou sobre amor. Quando ele conversou sobre amor, ele encostou-se novamente no sofá com seus membros esticados e olhou para cima como se ele morresse momentaneamente apenas considerando um conceito muito grande.

Sim, as comportas estavam realmente abertas quando o Sr. Sam Smith começou a falar sobre amor – grandes, lágrimas deliciosas que revestiram e aumentaram sua tristeza, gloriosos olhos azuis mas que nunca se esvaziaram sobre suas bochechas. Ele está bem com seu choro, que escolha ele tem? Seu pai costumava chorar no pôr do sol, ou após um debate. Ele encorajou seu filho a ser emocionalmente expressivo. Funcionou. A super-via que corre entre a amídala do Sr. Sam Smith e os dutos lacrimosos, é profunda e bem desgastada.  Ele tem estado apaixonado, ele disse, mas não foi correspondido. Querendo dizer que ele nunca foi amado de volta. Ele estava chorando novamente.

Já tem mais de três anos desde que seu primeiro álbum de estúdio, “In The Lonely Hour”, agitou o planeta dos corações partidos. Já faz tempo desde que sua adorável, e multifacetada voz, chamou pelo desprovido, o abandonado e o rejeitado, e anunciou-se o próprio avatar dessa geração do desespero romântico. Faz quase tanto tempo desde que ele tornou-se uma verdadeira estrela pop: quatro vezes vencedor de um prêmio Grammy com 5 singles no Top 10, vencedor de um prêmio Oscar – com menos de uma hora de música. E, quando o Sr. Sam Smith me disse isto, seus olhos umedeceram de novo.

Ele tem tentado. O Senhor sabe que ele tem tentado. Ele queria estar aberto com o mundo; ele queria compartilhar o mais verdadeiro eu. Ele queria ser conhecido. Seu único objetivo com sua música é estar próximo, e mais próximo, de quem ele realmente é, ainda que, isso seja difícil quando você está nos seus vinte anos. Ele tem vinte e cinco, agora. Ele está tentando lidar com sua alma. Mas,  uma alma de vinte e cinco anos pode ser uma coisa volátil. Ele nem sempre sabe como articular o que ele pensa. Ele nem sempre percebe as implicações do que ele diz. A alma pode ser desleixada. A alma pode estar em construção. Por favor, perdoe a poeira da sua alma durante renovações e, amadureça e descubra coisas. Isso é novo para ele também.

Em 2014, Smith fez algo revolucionário. Ele se assumiu gay publicamente assim que seu álbum foi lançado. Ele não deixaria a questão de sua sexualidade como uma suposição ou rumor. Ele pensou que isso fosse muito esclarecedor, um cantor gay de pop entregue ao estrelado sem as ondas esmagadoras e a controvérsia. O punhado de astros gays do pop – incluindo seu ídolo, George Michael – na maior parte suportaram longos períodos de, “Eles são ou não são?”, antes de serem conhecidos publicamente como homossexuais.

“In The Lonely Hour” é um pouco mais de meia-hora de um ataque de choro sobre a saudade de um homem – um hétero. Quase todas as músicas eram sobre isso: “Stay With Me”,  a canção triste sobre querer que um homem fique mesmo quando está claro que ele não está apaixonado; “Good Thing”, a canção triste decidindo que ele ficou esperando muito tempo. E, na  versão deluxe do álbum, “How Will I Know?” que é um cover de Whitney Houston, na qual não era uma canção triste, até que ele cantou.

Ele disse a Rolling Stone que ele “teve que ter cuidado” para que pessoas hétero pudessem cantar junto com ele também. “Eu não sou Sam Smith, o cantor gay”, ele disse na época. “Eu sou Sam Smith, o cantor que é gay”. Ele deu uma entrevista onde ele falou sobre Grindr e Tinder, os aplicativos de conexão, e como foi triste que todas as possibilidades por trás do amor e da serendipidade tenham chegado a uma cultura deslizante, e dizendo que isso ofendeu alguns na comunidade gay também. Ele aceitou o Oscar para a melhor música original para “Writing’s on the Wall”, de “Spectre”, o filme de James Bond, referindo-se a um artigo que ele havia lido, no qual Ian McKellen havia “afirmado que nenhum homem abertamente gay nunca ganhou um Oscar.  Se este for o caso – mesmo que não seja o caso – eu quero dedicar isso a comunidade LGBT em todo o mundo.

Bem, ele acordou na manhã seguinte ao Oscar para um assassinato digno do ridículo, incluindo de um homem abertamente gay que tinha ganhado um Oscar.  O The Verge chamou a declaração de Smith de “vaga” e “inexata”, dizendo, “Se você está indo fazer campanha para uma causa no palco, você precisa ir correto”. Gawker, em um ensaio sobre o “conservadorismo gay” de Sam Smith, escreveu, “Sua filosofia é, em resumo, ser gay, mas também não tão gay”. Com certeza, ele percebe rapidamente que a coisa do Oscar estava errada – ele quis dizer que nunca houve um vencedor do ator principal abertamente gay – mas outra coisa: por que isso foi entendido tão mal? Então, e se ele não gostasse de aplicativos de transmissão simultânea? Por que isso foi surpreendente? Eles não ouviram sua alma retro? O que nele pareceu exatamente moderno? Ele nunca disse que era um porta-voz para as pessoas gays.

O incidente com o Oscar o surpreendeu. Seu coração estava com todas as palavras no lugar certo. Ele era um orgulhoso homem gay. Como aquilo poderia significar nada? “Eu não sou a pessoa mais eloquente”, disse Smith agora. “Não tive as melhores notas na escola, eu digo, sou apenas bom em cantar”.

Parece que ele estava sendo martelado cada vez que abria sua boca. Tudo o que ele queria era lembrar as pessoas que amor é amor, particularmente sua marca de amor jovem adulto: o amor do emoji de olhos de coração, o amor da flecha do cupido, o amor do “The Notebook” e do “Titanic”. Isso é o quão grande o amor é. Mais uma vez, no assunto favorito dele, ele finge desmaiar na sofá com desejo. Ele aperta seu coração e faz suas sobrancelhas quase tocar um campanário da saudade. Isso é a coisa que todos nós temos em comum. Por que falar de coisas que nos fazem diferentes?

Você tem que entender como era para ele. Smith foi criado em Great Chishill, uma vila a uma hora e meia de Londres, com uma população de menos de 700 habitantes. Ele usava um rosto cheio de maquiagem na escola – uma escola católica – e falsos cílios também, e elaborava arranjos de flores fixadas  em sua lapela, junto com a ocasional completa pitada de brilho.  Algumas crianças eram ruins com ele por causa da sua sexualidade, mas foi o zombamento do seu peso que o incomodou. Sua sexualidade não era uma negociação; seu peso era.

Ele cresceu com duas irmãs em uma casa cor-de-rosa. A parede do quarto dele era pintada de dourado brilhante e sua cama tinha um edredom vermelho de seda. Um dia, na detenção, alguém falou sobre o tabuleiro dos sonhos, e então ele passou uma hora fazendo um para colocar na parede do seu quarto. Havia um esboço de um Grammy lá.

Ele se assumiu aos 10 anos. Sem exagero, alguém na escola disse, “Você é gay?”, e ele disse, “Sou”. Sua mãe disse que sabia desde que ele tinha 3 anos de idade. Ele sempre teve cabelo muito curto, mas quando ele era novo, ele costumava fazer o gesto de empurrar sua costas para trás das suas orelhas, como se fosse vagaroso, ou deslizando seu cabelo imaginário nos seus ombros. No carro, quando as janelas estavam abertas, ele fingia ter conseguido um cabelo preso em seus lábios e pega-lo.

E estava totalmente bem, mesmo quando não estava, até mesmo quando o primeiro garoto que ele teve uma paixão disse coisas perversas e homofóbicas para ele, coisas que ainda o faz chorar. Mas ele tinha muitos amigos. Não havia outros garotos (abertamente) homossexuais. Ele se apaixonou por garotos héteros. Ele mal conseguia imaginar um futuro quando um deles olhava de volta para ele com desejo ou curiosidade sexual, muito menos amor.  E ele ainda estava feliz. Ele cresceu confortável no seu anseio. Pessoas faziam piada sobre ele, mas e daí? Ele não entendia quem ele era. Ele pensou que se você sabe quem você é, e você está confiante sobre isso e não precisa fazer um grande negócio disto, pessoas irão aceitar você.

Seus pais o inscreveram para lições de voz quando ele não não parou de murmurar por toda a casa. Ele tinha um manager  aos onze anos, então outro, e outro, cada um prometendo que ele se tornaria muito famoso em pouco tempo. Não aconteceu. Ele se mudou para Londres, onde ele cuidava de um bar. Um dia, ele conheceu Jimmy Napes, que o apresentou aos seus managers,  que em seguida o apresentou ao duo eletrônico Disclosure, com quem ele gravou os vocais de “Latch” em 2012.

O resto – o álbum, a turnê – aconteceu rápido. Ele acordou no dia após o Oscar, viu o caos online e desculpou-se. Por que isso não estava funcionando? Pessoas amavam sua música, mas eles estavam criticando ele. Ele não suportava ser pensado como um traidor para o seu público – ele estava tão sincero sobre tudo! Claro, ele não gostava do Tinder, e a maior verdade é que ele não gostava pois não era romântico, mas talvez seja mais verdade que ele estava assustado de ser deslizado. Acredite ou não, ele usou o Grindr, mas ele não queria conexões aleatórias, então ele organizou encontros com diversos homens muitos confusos.

Então, um dia, ele foi à Austrália para um show e posteriormente teve uma conversa com seu publicitário, um homem gay que vive com seu parceiro. O publicitário levou Smith ao Stonewall, um bar gay em Sidney, para uma bebida à tarde. Ele decidiu educá-lo, o levando a uma livraria gay. “Minha mente funcionou”, Sam disse. Ele leu “Holding The Man”, o qual explodiu sua mente. Ele assistiu “Paris Is Burning”.  Ele ainda tem  “Tales of The City” na sua mesa de cabeceira. Em seguida, o australiano o introduziu ao drag.

“Eu vivi numa vila no meio do nada como um homem abertamente gay desde meus 10 anos”, Sam disse. “Não conheci outro homem gay até eu ter 19 anos, quando me mudei para Londres. Eu apenas fui poucas vezes a clube gays com alguns amigos héteros e algumas namoradas, e então, eu me tornei famoso. Eu nunca tive a oportunidade de encontrar meu pessoal na comunidade gay e encontrar meus amigos”.

Ele decidiu não beber, fumar ou estar com outro homem, até mesmo beijar, por longo tempo, enquanto ele estava deduzindo todas essas coisas. Ele estava tentando entender como ele encaixaria na comunidade gay em geral. “Eu realmente sentei comigo mesmo e me conheci e comecei a gostar das minhas marcas e não ser tão duro comigo e parar de ver perfeição todo lugar”.

Ele começou procurando a arte que o atingiu como mais verdadeiro. Ele parou de assistir “Titanic” e “The Notebook”. Está bem, ele assistiu “The Notebook” novamente semana passada, mas ele também assistiu “Weekend”, um filme indie com temática LGBT, então isso equilibrou.

Então ele encontrou George Michael. Ele sempre foi um fã da sua música. Ele [Sam] tinha quinze anos quando viu um concerto dele. Mas agora, lendo e assistindo entrevistas com ele em seus últimos anos, antes de Michael assumir-se publicamente, Sr. Smith o encontrou como um grande mentor. “Sinto como se fosse ofender alguém toda vez que abrir minha boca”, ele disse. “Sinto que George tinha uma maneira de ser autêntico consigo mesmo e honesto de uma forma calorosa”.

De volta a entrevista em West Hollywood, ele encostou-se novamente no sofá, olhou para cima no teto e soprou uma corrente de ar através dos seus lábios. “Pessoas esquecem, mas ninguém aprende sobre a história gay na escola. Nada. Então, eu não sabia coisa alguma sobre minha história como um homem gay e então, palavras como “porta-voz” estavam sendo jogadas em mim quando eu apenas apresentei meu primeiro álbum”, ele disse. “Isso me assustou por que que estava tipo, ‘Eu não sei qualquer coisa sobre ser gay, realmente”.

Ele percebeu duas coisas. Uma, foi que ele não estava pronto pra fazer um segundo álbum. A outra coisa, foi que assumir-se como um homem gay não era suficiente. Agora ele percebeu que toda pessoa gay visível tem um papel de liderança. Ele agora compreende que ele não estava trabalhando por conta própria, mas que ele viveu no contexto de uma comunidade, ele percebendo ou não. Ele percebeu que era hora de assumir-se como um homem gay.

Na tarde seguinte, sábado, ele dirigiu para o Hollywood Bowl, onde ele estava performando em um concerto em apoio a luta contra o câncer de mama, que incluiu ainda Lorde e Harry Styles.

Desde que ele deixou os olhos do público e foi para o estúdio, que é onde ele está desde o fim da última turnê, em 2015, ele perdeu uma tonelada de peso fazendo algo chamado “jejum intermitente”, o que significa que ele espera cinco horas depois de comer para comer novamente. Um treinador. Uma nutricionista. Ele parou de comer pão. Provavelmente ser um homem em seus vinte anos ajudou.

Sua transformação foi provocada ao ver uma imagem tablóide de si mesmo na praia sem uma camisa, e esse não era o eu que ele queria ser. Ele também estava preocupado com sua saúde. Ele tem refluxo ácido e é ruim para sua voz. Ele conhece outras estrelas “Mime”, como ele diz, mas ele não quer. Sua voz é toda sua coisa, toda sua bagagem de truques.

Se “In the Lonely Hour” fosse o olhar míope no coração de um garoto apaixonado, o novo álbum, “The Thrill of It All”, é sobre um homem que gira o olhar para fora. “Midnight Train” é uma música triste sobre o fim de um relacionamento que foi inspirado por amigos; “Palace”, uma música triste sobre se o amor vale ou não; “Him”, uma história triste de um menino imaginado no Mississippi que se assume ao seu pai. Algumas das faixas são sobre o próprio Smith, incluindo “Burning”, uma música triste sobre ter saudade de um homem que o deixou; e “One Last Song”, uma oda final triste para o homem que foi o sujeito de “In the Lonely Hour”. O novo álbum não será uma surpresa para ninguém familiarizado com o primeiro: a alma do velho tempo ainda existe. O Sr. Smith decidiu há muito tempo que sua voz era o instrumento. Ainda é música para “ter relações sexuais com a sua tristeza”, como o Sr. Smith disse.

Mas ele agora pode contar relacionamentos reais em suas músicas. Ele ainda nunca esteve no tipo de amor “caderno mágico” que ele anseia, disse ele, mas há cerca de um ano, ele teve uma relação de cinco meses que levou três rupturas antes da separação e que é o assunto de “Too Good at Goodbyes”. Ele está namorando o ator Brandon Flynn, de “13 Reasons Why” atualmente.

No dia seguinte, as mídias receberiam uma declaração que ele fez sobre se sentir tanto como uma mulher como um homem, e as mídias sociais iriam buscá-lo por ser muito casual sobre a fluidez de gênero quando ele se identifica como homem gay. Um dia, ele irá corrigir, ele disse, seus olhos brilhantes com grandes e tristes lágrimas de Sam Smith.

“Gostaria que todos soubessem que sinto muito, se eu disse coisas erradas”, disse ele. “Eu não quero ofender ninguém e minhas intenções são genuinamente puras e boas. Eu ainda estou tentando entender e eu gostaria de ser tratado como um ser humano. Se eu cometer erros, não me mate”.

Sim, um dia. Um dia, quando ele ser velho, ele disse, ele vai saber o que dizer. Ele vai ser alguém que pode descobrir como pensar suas palavras antes de dizer. Ele envelhecerá e, ele vai parar de usar seu falsete demais, ele disse. É um som que não envelhece com você, e mesmo no novo álbum, ele começou a cantar mais em sua voz regular. Eventualmente, ele vai ser como Joni Mitchell e apenas usar os registros mais baixos. Ele vai estar no palco como Joni na capa de “Both Sides Now”, com um copo de vinho e um cigarro. Ele está ansioso para isso, quando a voz dele começar a ficar cheia e quebrada como Judy Garland quando canta “Over the Rainbow”.

Eventualmente ele vai se aposentar e abrir uma loja de flores no campo inglês, disse ele. Ele entrará realmente na culinária, ele terá um porco de estimação chamado Kong ou talvez Flo, e ele viverá sempre feliz, cercado por seu marido e filhos, e seu armário cheio de drag. Seu funeral pedirá vestimenta elegante, e os homens terão que se vestir como mulheres e as mulheres terão que se vestir como homens. Drag Queens com grandes chapéus pretos, com véus e saltos altos levarão seu caixão para fora. Então disco music tocará. Isso é legal, não é? Sim, é bom pensar em um momento em que ele saberá com certeza como ser.

Fonte\Adaptado

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